Aos 76 anos, o violonista e compositor carioca Guinga embarca em uma nova turnê europeia, passando por França, Bélgica e Inglaterra, com encerramento previsto para o final de outubro em Paris. A série de concertos reúne parcerias com nomes como Yamandu Costa, Anna Paes e Débora Dienstmann, reafirmando o lugar do músico como uma das vozes mais respeitadas da música instrumental brasileira contemporânea.
Uma obra construída no diálogo
Em entrevista à RFI, Guinga evitou o rótulo de mestre e preferiu falar do valor do encontro artístico. "Eu acho que o palco é como a mesa. Você fazer uma refeição sozinho é bem menos marcante do que você fazer uma refeição com alguém que você ama", disse. Segundo o compositor, nada é deixado ao acaso em suas apresentações: "Eu não improviso nada." Anna Paes, parceira de longa data, e Débora Dienstmann, radicada na Itália, figuram entre os nomes que mais se aproximaram de seu repertório nos últimos anos.
Da odontologia à consagração tardia
A trajetória de Guinga foge dos caminhos convencionais. Começou a carreira aos 16 anos, mas interrompeu a atividade musical para se formar em odontologia, profissão que exerceu por 32 anos. Foi justamente essa estabilidade que lhe permitiu compor sem pressões comerciais. "Eu compus a maior parte da minha obra quando era dentista, grande parte dentro do consultório", recorda. Daquele período nasceram canções gravadas por Elis Regina, Chico Buarque, Clara Nunes, Ivan Lins e Sérgio Mendes, entre outros. Hermeto Pascoal resumiu a admiração da classe musical numa frase célebre: "Um cara como esse só aparece a cada cem anos."
Memória, parcerias e reflexões sobre o Brasil
A produtora francesa Aurélie Tyszblat, responsável pela turnê atual, lembra que Guinga se apresentou pouco em Paris ao longo da carreira, apesar de presença regular em outros países europeus. Nas masterclasses da turnê, o compositor tem demonstrado preocupação com as dificuldades dos jovens músicos para se afirmar. Ao relembrar a parceria com Aldir Blanc, recorda a luta do letrista para viabilizar seu primeiro disco autoral, aos 41 anos, e a irmandade construída entre ambos, marcada por experiências comuns durante a ditadura militar. Questionado sobre o cenário político brasileiro, Guinga criticou duramente a família Bolsonaro e defendeu investimento em educação e cultura, citando Darcy Ribeiro: "Muito melhor construir escolas, educar a criança, do que depois levantar muros e construir presídios."